O motorista impaciente

20/07/2012

A cena descrita abaixo foi testemunhada pela minha amiga Françoise Terzian, habitué dos coletivos.

Motoristas de ônibus estão na era da “tolerância zero”. Eu estava na Rebouças esperando o ônibus pra Consolação e uma menina pergunta ao “driver” se ele desce a Consolação e ele diz que sim. Aí ela questiona se sobe a Rebouças e eis a porrada: “Como você espera que eu desça a Consolação sem subir a Rebouças, hein inteligência?”


O vascaíno calibrado

19/07/2012
Elmer Vai, autor do famoso e um dos mais acessados posts deste blog – “Bufa em dia de Chuva” –, ataca com mais uma hilária história, desta vez na Cidade Maravilhosa.
 
Mais uma aventura no busão! Rio de Janeiro, inverno de 2011. Partida: centro do Rio. Destino: Barra da Tijuca.
 
Era tarde da noite, por volta das 23 horas, quando eu voltava da ESPM com dois colegas. Conversávamos sobre os trabalhos, as aulas, aquela trivialidade toda. Estávamos sentados nas penúltimas poltronas do lado direito. O motorista chumbava o pé na tábua, aquele treme-treme que parece que vai desmontar a lata velha. De repente, aquela freada brusca em algum ponto em Botafogo. Sobe um ONI (objeto não identificado): elemento descabelado, de olhos vermelhos, sujo e suado, vestindo uma camisa do Vasco tão desbotada que a faixa, um dia preta, estava marrom. Caminhava em linhas tortas. Paramos por uns segundos, fitamos os olhos na criatura e nos indagamos: “WHATAFUCK?!?”. E voltamos a conversar.
 
O sujeito vinha em nossa direção e, passando pelo nosso lado, sentou-se no último banco bem na janela, ao lado de um casal muito humilde, com um bebê que parecia imune aos balanços e solavancos do coletivo.
 
Nesse momento, ouvimos ruídos/murmúrios vindo de trás do nosso acento. Era ele, o zumbi vascaíno. Olhamos pro cara, meio querendo rir. Ele tentou dialogar. Falou umas palavras no seu próprio dialeto e entendemos que ele estava passando mal. Ignoramos e viramos pra frente. De repente, ele chama por aqueles dois nomes de “personas non gratas” em coletivos: HUUUUUGO!!! RAUUUUUUUL!!! O sujeio “gorfou”! Tarde demais.
 
O chão ficou inundado daquela “sopa cheirosa”. Fizemos o maior alvoroço. Mesmo com nojo, demos muita risada, colocamos os pés no banco. E o casal com o bebê? Nem uma resmungada.
 
O autor do crime colocou a cabeça pra fora da janela pra tomar um ar básico e, depois de uns minutos voltou com a cabeça pra dentro, respirou fundo, olhou pra nós com cara de inocente e fez a grande revelação:
–  Acho que foi o pastel.
 
E meu amigo replicou:
–  Sei…pastel de cana, né?

Cenas cotidianas no Circular 184

17/07/2012

A história de hoje é da minha amiga Renata de Melo.

Hoje peguei o Circular 184 (em Santos), do centro da cidade para casa, na Ponta da Praia. Quando consegui me sentar, uma mulher na minha frente me chamou a atenção: estava com um fone daqueles que faz a gente parecer de outro planeta de tão grande que é. E, não contente em usar o trambolho, ela literalmente pensava ser integrante do grupo Fat Family, porque não parava de mexer a cabeça fazendo aquela coreografia “pescoçal”, quase dando uma cabeçada na outra que estava ao lado.

Quando penso que aquela era a única cena esquisita do dia, olho pro meu lado direito e vejo uma mulher encostada na janela, com a mão no rosto. Pensei “deve estar roendo as unhas”. Mas não: estava mesmo era tirando uma bela “craca” do nariz!!!! Como se não bastasse a “extração” do elemento estranho de suas narinas, ela ficou enrolando aquilo como se fosse massinha de modelar. E para fechar com chave de ouro, com a mesma mão que fez o serviço sujo, abriu um pacote de biscoito e ficou lá, degustando o lanchinho…


Naturalidade

16/07/2012

Sentei-me entre duas senhoras no banco da rodoviária de Santos para aguardar a chegada do meu ônibus rumo ao Jabaquara.

Aproveitei aqueles minutos para ler uma passagem bíblica do livro de devocional diária que acompanho. “Nada mais inspirador do que começar o dia lendo a Palavra de Deus”, pensei.

Foi quando eu escutei um belo e audível “sonoro” (perdão pela redundância), que meu pai classificaria como “rajada de metralhadora” vindo do traseiro da senhora sentada à minha esquerda. Ela nem se mexeu, não tossiu nem derrubou nada para tentar disfarçar!  E ainda chamou o marido, que estava em pé, para falar qualquer bobagem. Quanta naturalidade! Afinal, todo mundo peida, até a rainha da Inglaterra…


Polidez na plataforma do metrô

15/07/2012

Da série “cena que se vê na plataforma do metrô”: um distinto senhor escarra 3 vezes seguidas, MAS dentro da lixeira! De uma finesse européia. Que o seu exemplo seja modelo para os que o fazem no chão.


O prestativo

09/02/2012

Passei um final de semana no Rio de Janeiro na casa de uns amigos e pela primeira vez peguei ônibus e metrô pela cidade maravilhosa. Perdidaça, quando voltava para casa num dos dias, me aproximei da lotação na saída do metrô para confirmar o trajeto com o motorista. E antes que ele pudesse esboçar uma resposta, um passageiro prontamente me respondeu que o ônibus passava pela rua que eu queria.

Satisfeita, entrei no veículo, paguei a passagem e o sujeito me ajudou a virar a catraca. Quanta gentileza! Uma outra senhora entrou, mesmo gesto.

O motorista começou a andar e, de repente, leva uma fechada. “Esses motoristas são uns folgados, onde já se viu fazer isso?!?”, exclamou o nosso amigo ao motorista da lotação, tentando ser solidário.

Mais pra frente, um pequeno engarrafamento. “Joga uma canhota aí, motorista”, opinou o prestativo passageiro, indicando o melhor caminho, em sua opinião, claro.

Depois de uns 15 minutos de viagem, ele avisa: “A sua rua é logo aqui. É só atravessar no semáforo e seguir reto. Pára aí, motorista, pra moça descer!” Não era nem ponto, mas o motorista obedeceu direitinho! “Muito obrigada”, devolvi pro cara, engolindo uma risada.

Acho que o motorista teve que dividir o ordenado do dia com o coadjuvante!


Antes só…

04/02/2012

O autor da história de hoje é o Cesar Guludjian. A aventura dele no Ceará foi pra lá de emocionante! Confiram.

O micro-ônibus que me levaria de Fortaleza a Jericoacoara prometia uma viagem agradável. Ar condicionado, poucos passageiros, cinco horas de novas paisagens através do vidro fumê. Cinco foi o que me informou a desinformada moça que me vendeu a passagem. Foram oito.

Presenciei o milagre da multiplicação das horas e dos passageiros. Logo descobri que o coletivo era um pinga-pinga. Parava na menor cidadezinha que houvesse no trajeto. Gente de todo tipo subia e descia portando coisas as mais variadas, entre aves vivas, pacotes de sementes e outros insumos agrícolas, com seus odores peculiares.

Assim foi a ida. Mal sabia o que me esperava na volta.

A estada em Jeri foi ótima, mas melhor teria sido se uma intoxicação alimentar não tivesse me derrubado nos últimos dias. Entrei no micro-ônibus um tanto desidratado e debilitado, mas disposto a relaxar, talvez tirar uma boa soneca. Desta vez, pelo menos, eu ia com o espírito preparado para as longas oito horas de estrada. Mas não para o Arlindo.

Tal figura subiu a bordo na segunda parada. Enfiou um grande saco plástico verde no compartimento de bagagens de mão, instalou-se no assento ao meu lado e puxou conversa. Como se pode imaginar, eu não estava nem um pouco a fim de papo. Mas ele estava, e muito.

Apresentou-se, disse que era pescador de lagostas. Contou que costumava ficar no barco por dias a fio e acabava de retornar de uma dessas jornadas de trabalho no mar. Estava explicada a necessidade de dialogar: eu era o primeiro não crustáceo com quem o rapaz tinha a oportunidade de trocar ideias em um bom tempo.

Aqui entra a agravante etílica. Sempre que o ônibus parava, o pescador descia para comprar cerveja. Eu aproveitava e fingia estar dormindo, mas era em vão. Ele me cutucava e oferecia uma latinha, que eu educadamente recusava. Então desatava de novo a, entre goles generosos, falar sobre a mãe, a irmã, a tia, o cunhado… Trivialidades num coletivo do Ceará.

A cena se repetia a cada parada. Ele cada vez mais ébrio e tagarela, eu exercitando a minha paciência de Jó. Apesar de não estar dando pano para manga, tampouco destratei o sujeito, e ele pareceu ficar contente com isso. Tanto que, em determinado momento, me encarou e disse:

–  Taí, gostei de você! É gente boa. Vou te dar um presente.

No mesmo instante, ergueu-se, alcançou o saco verde e o abriu. O que se seguiu foi surreal: pelas mãos dele, saiu de dentro do embrulho e veio pousar no meu colo uma enorme lagosta!

–  Tá cozida e salgada, pronta pra usar.

Não sabia se ria ou se chorava, a situação era inusitada demais. Com esforço, balbuciei um agradecimento:

–  Puxa, não precisava…

Atônitos, os passageiros em volta olhavam para o bicho cheio de patas e antenas.

E o bicho olhava para mim.


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