O prestativo

09/02/2012

Passei um final de semana no Rio de Janeiro na casa de uns amigos e pela primeira vez peguei ônibus e metrô pela cidade maravilhosa. Perdidaça, quando voltava para casa num dos dias, me aproximei da lotação na saída do metrô para confirmar o trajeto com o motorista. E antes que ele pudesse esboçar uma resposta, um passageiro prontamente me respondeu que o ônibus passava pela rua que eu queria.

Satisfeita, entrei no veículo, paguei a passagem e o sujeito me ajudou a virar a catraca. Quanta gentileza! Uma outra senhora entrou, mesmo gesto.

O motorista começou a andar e, de repente, leva uma fechada. “Esses motoristas são uns folgados, onde já se viu fazer isso?!?”, exclamou o nosso amigo ao motorista da lotação, tentando ser solidário.

Mais pra frente, um pequeno engarrafamento. “Joga uma canhota aí, motorista”, opinou o prestativo passageiro, indicando o melhor caminho, em sua opinião, claro.

Depois de uns 15 minutos de viagem, ele avisa: “A sua rua é logo aqui. É só atravessar no semáforo e seguir reto. Pára aí, motorista, pra moça descer!” Não era nem ponto, mas o motorista obedeceu direitinho! “Muito obrigada”, devolvi pro cara, engolindo uma risada.

Acho que o motorista teve que dividir o ordenado do dia com o coadjuvante!


Antes só…

04/02/2012

O autor da história de hoje é o Cesar Guludjian. A aventura dele no Ceará foi pra lá de emocionante! Confiram.

O micro-ônibus que me levaria de Fortaleza a Jericoacoara prometia uma viagem agradável. Ar condicionado, poucos passageiros, cinco horas de novas paisagens através do vidro fumê. Cinco foi o que me informou a desinformada moça que me vendeu a passagem. Foram oito.

Presenciei o milagre da multiplicação das horas e dos passageiros. Logo descobri que o coletivo era um pinga-pinga. Parava na menor cidadezinha que houvesse no trajeto. Gente de todo tipo subia e descia portando coisas as mais variadas, entre aves vivas, pacotes de sementes e outros insumos agrícolas, com seus odores peculiares.

Assim foi a ida. Mal sabia o que me esperava na volta.

A estada em Jeri foi ótima, mas melhor teria sido se uma intoxicação alimentar não tivesse me derrubado nos últimos dias. Entrei no micro-ônibus um tanto desidratado e debilitado, mas disposto a relaxar, talvez tirar uma boa soneca. Desta vez, pelo menos, eu ia com o espírito preparado para as longas oito horas de estrada. Mas não para o Arlindo.

Tal figura subiu a bordo na segunda parada. Enfiou um grande saco plástico verde no compartimento de bagagens de mão, instalou-se no assento ao meu lado e puxou conversa. Como se pode imaginar, eu não estava nem um pouco a fim de papo. Mas ele estava, e muito.

Apresentou-se, disse que era pescador de lagostas. Contou que costumava ficar no barco por dias a fio e acabava de retornar de uma dessas jornadas de trabalho no mar. Estava explicada a necessidade de dialogar: eu era o primeiro não crustáceo com quem o rapaz tinha a oportunidade de trocar ideias em um bom tempo.

Aqui entra a agravante etílica. Sempre que o ônibus parava, o pescador descia para comprar cerveja. Eu aproveitava e fingia estar dormindo, mas era em vão. Ele me cutucava e oferecia uma latinha, que eu educadamente recusava. Então desatava de novo a, entre goles generosos, falar sobre a mãe, a irmã, a tia, o cunhado… Trivialidades num coletivo do Ceará.

A cena se repetia a cada parada. Ele cada vez mais ébrio e tagarela, eu exercitando a minha paciência de Jó. Apesar de não estar dando pano para manga, tampouco destratei o sujeito, e ele pareceu ficar contente com isso. Tanto que, em determinado momento, me encarou e disse:

–  Taí, gostei de você! É gente boa. Vou te dar um presente.

No mesmo instante, ergueu-se, alcançou o saco verde e o abriu. O que se seguiu foi surreal: pelas mãos dele, saiu de dentro do embrulho e veio pousar no meu colo uma enorme lagosta!

–  Tá cozida e salgada, pronta pra usar.

Não sabia se ria ou se chorava, a situação era inusitada demais. Com esforço, balbuciei um agradecimento:

–  Puxa, não precisava…

Atônitos, os passageiros em volta olhavam para o bicho cheio de patas e antenas.

E o bicho olhava para mim.


Lata de sardinha

01/02/2012

Quem nunca se sentiu uma sardinha enlatada dentro de um busão lotado pelo menos uma vez? Eu já passei por essa inesquecível experiência inúmeras vezes, mas há muuuuuito tempo não tinha esse desprazer. Eram quase 17 horas em São Paulo. Consulta médica no Campo Belo e eu estava sentido Santo Amaro. Sinônimo de ônibus lotado.

Meio desnorteada, entrei e perguntei ao cobrador se estava muito longe da onde eu precisava descer. O infeliz não sabia me dizer nem onde ele estava. “Vou perguntar pro motorista se está perto. Se sim, vou pedir pra ele me deixar virar a catraca e descer pela frente”, disse a ele, em referência ao gentil gesto que muitos motoristas fazem. E ele devolveu: “Vou te avisar: esse motorista é um casca grossa. Ele não deixa ninguém descer pela frente.” Eu quis arriscar, vai que ele me acha charmosa como o colega dele da outra linha que me deu uma cantada uma vez, né? Ledo engano.

O sujeito se fez de surdo, não queria nem me informar onde eu tinha que descer quanto mais me deixar sair pela porta da frente. “Só desce pela porta da frente quem tem carteirinha que autoriza”, esbravejou. Toda sem-graça, engoli um seco, encarei o meio de campo e parti pra catraca: com bolsa num braço e sobretudo pesadíssimo no outro (sim, foi um daqueles dias em que amanheceu inverno na Islândia e entardeceu com um calorzinho do típico veranico paulistano). Era ali que começava a jornada.

Faltava ainda uns quatro pontos e comecei a dar cotovelada, pedir licença, me espremer pra enfrentar pares de traseiros enormes, gente fedida, gente que fica na porta sendo que só vai descer no ponto final. De repente eu ouço “Se eu fosse cobrador, nunca que eu deixava uma mulher pagar passagem. Descia tudo pela porta da frente”, falou um passageiro “simpático” à minha causa.

De repente vira outro: “É moça, não liga não, esse motorista é um grosso mesmo, não ajuda ninguém e ainda te xinga se pergunta alguma coisa”.  Chegou o ponto. E ainda tinha umas 15 pessoas na minha frente. Gritei “vai descer”. E ninguém se mexeu, só o motorista que ameaçou partir acelerando o carro. E eu “dá pra fazer o favor de descerem do ônibus pra eu conseguir sair e aí vocês voltam pra dentro?” Aí uns se espremeram, outros desceram e eu consegui, finalmente, me desvencilhar da multidão e sair daquele corredor polonês. UFA!


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